No primeiro ano de casamento, devia ser terminantemente proibido assumir a responsabilidade de fazer comidas complicadas em festas de família, Natal, Páscoa, Reveillon, essas coisas.
Eu me casei no mês de setembro. Portanto, tinha apenas dois meses de escassas experiências culinárias quando fiquei frente a frente com o meu primeiro chéster.
Meu marido e eu fomos convidados para passar o primeiro Reveillon do casal na casa de um amigo. Era uma turma grande de jornalistas. O esquema era simples: cada um leva uma coisa. E o tal frango de peito grande sobrou pra mim.
Apesar de todo mundo dizer que era muito fácil de preparar, fiquei um tanto preocupada. Na época, atendia vários clientes de gastronomia e queria impressionar com um prato super bacana. Baixei na Internet uma dezena de receitas e montei uma só minha. Foi quase uma semana de preparação. Escolhi os ingredientes a dedo, descongelei o danado, tirei os miúdos lá de dentro e coloquei duas cebolas inteiras lá dentro. Temperei bem direitinho e deixei de um dia para o outro no vinho, para pegar gosto.
No dia seguinte, todo cuidado era pouco. Eu queria ter o orgulho de dizer que tinha feito tudo sozinha. E não, não podia dar nada errado. Se alguma coisa desandasse, minha mãe estava a centenas de quilômetros de distância, fazendo caminhada na beira da praia. Quem mais poderia me socorrer?
Bom, a festa estava marcada para começar às dez. Programei para que o chester ficasse pronto entre oito e nove horas da noite. Assim, daria tempo de remediar, caso acontecesse algum desastre ecológico. De meia em meia hora, eu abria o forno, tirava o papel alumínio e regava o frangão com o caldinho do vinho temperado. Lá pelas oito, tirei o papel alumínio e deixei dorar. O cheiro era sensacional.
Pronto! Lá estava ele prontinho, como combinado. Toda cheia de mim, chamei o maridão para ver. Ele pára, olha, pensa. Olha de novo, reflete um pouquinho...
- Não tem nada errado com ele? – pergunta.
- Que isso? Tá doido? Claro que não!
- Hum... tô achando alguma coisa estranha nele...
- Ai, não vem, não... Tá tudo certinho.
- Vamos pesquisar na Internet? Ver algumas fotos?
- Pra quê? Eu baixei um monte de receitas. Tá tudo certo!
- Você baixou fotos?
- Não, só receitas.
- Então vou dar uma olhada nas fotos.
Ai, Jesus... Só me faltava essa. O meu "filho" estava ali, prontinho e cheiroso. O que podia haver de errado nisso?
- Amor, vem ver uma coisa... (me chamou o Rafael)
De repente, meu mundo caiu. Eu tinha assado o chester na posição errada, com o peito para baixo e perninhas abertas na fôrma! Como adivinhar que o certo era colocar o bicho de cabeça pra baixo? Lá estava ele arreganhado de tão cozido, completamente oposto às fotos que meu marido encontrou na Net. Tentei virá-lo na vasilha, mas ele desmanchava. Não tinha mais jeito. Um desastre.
Eu simplesmente me pus a chorar. Igual criança. Chorei, chorei, chorei. Não podia levar aquela coisa para o jantar. Por mais delicioso que estivesse, seria um mico antológico chegar com ele de pernas abertas para a ceia. Como posso ser tão distraída? Como é que eu nunca prestei atenção na posição desse troço? Porque não baixei as fotos antes? Onde estava minha mãe naquele momento?
Peguei o telefone e liguei para ela:
- Mãeee... assei o chester errado!!!!!!
- Como assim, minha filha?
Depois de explicar tudo entre soluços e lágrimas, ela tentou me acalmar:
- Eulene, corta ele em pedaços e decora com abacaxi e ameixas. Ninguém vai perceber.
- Eu não sei destrinchar frango, mãe! Nunca fiz isso na vida! Vai ficar horrível!...
- Ô minha filha, corta do seu jeito mesmo, não tem problema... Não chora por causa disso, não.
Ainda em prantos, desliguei o telefone. Meu marido, um santo, da mesma forma preocupado, resolve pedir ajuda:
- Vou ligar para minha mãe. Ela vem aqui e corta pra gente.
Eu nem conseguia pensar.
- Alô! – Era a minha cunhada.
- Oi Cindra, precisamos de ajuda. Minha mãe está aí? – falou o Rafael.
- Não, está na missa. Por quê?
- Você sabe destrinchar frango? – e explica a situação.
- Sei, mas tô saindo pra festa. Não vai dar para ir aí, não.
É o caos. Rafael resolve, então, pedir ajuda a Deus e vai à missa em busca da minha sogra. Enquanto isso, enxugo minhas lágrimas e corro para o supermercado, que já estava fechando as portas. Implorei para entrar e ainda encontrei um bom abacaxi na banca, além de um potinho de ameixas.
Cheguei em casa, descasquei tudo, arrumei todas as vasilhas, e nada do Rafael voltar. Começa o meu segundo momento de desespero. Alguns minutos pareciam horas... Eu andava de um lado para o outro, abria o forno, olhava pela janela. Logo em seguida chega a minha sogra achando graça da situação e parte meu querido chester virado. Ela conta que levou um susto ao ver o Rafael sentado ao seu lado na hora do "Pai Nosso" e sai da Igreja para salvar minha vida.
Enquando ela ajeitava o frango, retoquei a maquiagem e parti para o teste de fogo. Eu, Rafael e o chester chegamos a tempo na festa. Colocamos o bichinho na mesa como se nada estivesse acontecido, cumprimentamos os amigos e tentamos esquecer aquela novela.
Na hora da ceia, um nó na garganta. Mas não, não estava ruim. Muito pelo contrário. Foram só elogios e mais elogios ao frangão de peito macio. A receita? Segredo. Ninguém consegue faze um chester como eu.