Um calorzão lá fora e eu, no meio do trabalho, resolvi abrir uma cerveja. Trabalhar em casa tem suas vantagens. Escolhi uma Ouropretana Brown Porter que estava na geladeira, cerveja artesanal da melhor qualidade, feita pelo também jornalista Alan Terra. Fiquei inspirada e terminei um texto que estava tentando concluir há dois dias.
Artigo enviado, me veio uma das mais saudosas lembranças do meu tempo de foca – para os desavisados, termo usado para denominar jornalistas recém-formados. Foi lá, quem diria, na assessoria de imprensa do antigo Partido da Frente Liberal (PFL), que tive uma das lições mais inusitadas de toda a minha vida: de que cerveja também é coisa séria.
Sim, eu não achava que era até aquele dia. E ainda por muito tempo achei que tinha feito algo de extrema irresponsabilidade: parar tudo no meio do trabalho para ir com meu chefe, Almerindo Camilo, e o repórter Paulo Peixoto, da Folha de S. Paulo, num boteco copo sujo.
Sim, eram umas cinco horas da tarde, como hoje, com o sol rachando. Acabávamos de acompanhar um evento que reuniu grande parte da imprensa mineira. E, no final, restaram nós três. Os dois conversavam amenidades e confabulavam sobre a cena política, em geral. Paulo, provavelmente, tentando encontrar um gancho diferente para a matéria. Almerindo, buscando convencê-lo da melhor abordagem. E eu, só ouvindo e aprendendo.
De repente, Almerindo, no seu bom humor habitual, faz o convite: “Vamos ali tomar uma?”. Paulo, com seu olhar sempre tranquilo, consentiu de pronto. Eu olhei assustada e, lendo a surpresa nos meus olhos, Almerindo soltou sua inconfundível risada. “Vamos lá!”, falou ele já andando em direção à rua, sem me deixar escolha.
Eu, foca inexperiente, não fiz outra coisa senão segui-lo. Mas confesso que tinha uma sensação estranha no peito, de quem estava fazendo algo muito proibido. Atravessamos a Afonso Pena e paramos numa portinha pequena na descida da Contorno, próximo à praça Milton Campos.
Ele pediu uma cerveja e três copos. Eu agradeci. Ele sorriu de novo, insistiu, mas eu recusei novamente. “Está bem, traz uma coca-cola pra ela!”, disse ao garçom. Eu praticamente nada falava e, para ser sincera, não consigo sequer me lembrar sobre o que conversamos. Meu foco estava totalmente naquela contravenção. Eu olhava para os lados com medo de ser vista, o coração palpitava. E os dois lá, tranquilos, conversavam sobre sei lá o quê.
Voltamos para o partido cerca de uma hora depois, desligamos os computadores e fomos embora. Naturalmente.
Anos mais tarde, quem diria de novo, virei cervejeira de verdade. E entendi, quase que num gole, que ser certinha demais às vezes não é tão bom. E que a gente perde boas oportunidades de pauta, de network e, principalmente, de cultivar amigos.
Desculpe, Almerindo, não beber com você naquele dia. Queria muito poder tomar uma com você agora. Essa hoje é em sua homenagem. Um brinde, meu mestre.

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